Uma São Paulo para 2025

Por Fernando Vieira (*)

Passadas as eleições municipais, São Paulo começa a se organizar em torno de um planejamento que contemple até 2025. Para Guilherme Afif Domingos, coordenador do programa de governo do prefeito reeleito Gilberto Kassab (DEM), uma cidade tão complexa como a capital paulista precisa de uma visão focada no longo prazo. Trata-se, segundo ele, do tempo necessário para a própria viabilização dos projetos, que englobam diferentes realidades da megalópole.

"É inconcebível um replanejamento de quatro em quatro anos. São Paulo precisa ter planos para, no mínimo, 16 anos, que é o prazo necessário até mesmo para a maturação dos projetos. O governante pode mudar, mas a linha de planejamento não", disse Afif. "São Paulo não é apenas uma cidade. São várias cidades formadas por seus expressivos bairros, com realidades individualizadas. Por isso não se pode pensar pequeno".

Durante cerca de duas horas, o coordenador do programa de governo vitorioso do DEM participou da sessão plenária na sede da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), onde fez um balanço de toda a campanha eleitoral paulistana, uma antecipação dos próximos passos da segunda gestão Kassab e uma análise do cenário político que vem se desenhando para as eleições de 2010.

Afif afirmou que o prefeito reeleito tem a intenção de trazer a público a idéia de visão de longo prazo já desenvolvida no programa de governo, como uma forma de "sensibilizar a população" para essa necessidade. Segundo ele, o momento é ideal para promover a discussão das propostas mais profundas.

"Durante as campanhas eleitorais o cidadão é levado a ter interesse em saber o que se propõe de imediato. Por isso, é mais difícil aprofundar o debate", analisou.

Para Afif, que sempre acreditou na reeleição de Kassab, a vitória nas urnas teve uma sequência lógica, fruto de estratégia política, planejamento de marketing e habilidade de articulação. "Quem tinha medo era porque estava analisando política estaticamente", disse.

Segundo ele, o indicativo do possível sucesso na disputa, iniciada com apenas 9% das intenções de votos para o então candidato democrata, era a "forte aprovação do governo".

Desafios – Já os problemas detectados eram dois: o desconhecimento a respeito de Kassab, que nunca tinha experimentado uma exposição em candidatura majoritária, e a falta de crédito do prefeito dos méritos da gestão. "Sabíamos que a campanha só começaria a partir do início do programa eleitoral gratuito. Nosso objetivo era encostarmos na votação na medida da boa avaliação do governo", contou Afif, confirmando a tese após o pleito, já que a aprovação da gestão chegou aos 61%, mesmo patamar de votos válidos recebidos pelo prefeito.

Questionado sobre ser o estrategista, Afif fez questão de ressaltar o papel de Kassab como o hábil articulador. "Foi ele (Kassab) o cabeça, que conduziu o processo com extrema tranqüilidade".

Sobre os próximos passos da nova gestão, Afif disse que de imediato o prefeito deve promover a Virada Social, que representa a atuação incisiva na urbanização de favelas e na regularização de lotes. "Não vamos deixar acontecer em São Paulo o mesmo que no Rio de Janeiro. É preciso que o poder público coloque em prática o conceito de cidadania e reverta o processo de marginalização na cidade. Caso contrário, o crime organizado se encarregará", advertiu.

Ele justificou a prioridade citando números paulistanos, como 810 mil habitações irregulares, com uma população de 3,5 milhões sem endereço reconhecido pelo município, e um milhão de pessoas sem renda declarada. "Existe um Uruguai vivendo na marginalidade apenas em São Paulo", disse. "A primeira grande ação será o processo de instalação de água e de esgoto, medidas de saúde preventiva e meio ambiente. Esse programa já foi iniciado em cerca de 80 mil imóveis e será ampliado".

Afif citou ainda outra batalha que está prestes a ser concretizada, sem relação com a Prefeitura, mas de influência da ACSP. "O projeto de Micro Empreendedor Individual (MEI), levado a Brasília pela Casa, também deverá ser uma realidade no ano que vem, viabilizando um mutirão da legalidade para os trabalhadores informais", disse, justificando o retorno à Secretaria Estadual do Emprego e Relações do Trabalho ao fim da campanha.

"É uma missão que visa a auto-sustentabilidade da periferia da cidade, que se confronta com a política assistencialista, cujos benefícios acabam sempre apenas para quem assiste e não para o assistido", criticou.

Estado – De olho em 2010, Afif antecipou que a aliança tripartidária – PSDB, DEM e PMDB – já está firmada, pelo menos, em São Paulo. Ele destacou a importância da vitória de Kassab no estabelecimento dessa relação, com o reconhecimento ainda do governador José Serra, que sai fortalecido como a principal liderança política.

Afif foi surpreendido durante a plenária com uma faixa que congratulações ao prefeito eleito e tendo seu nome abaixo aclamado como governador. "Isso é boato, mas é agradável", brincou. Em seguida, ele admitiu que foi escalado como um candidato majoritário do DEM para as próximas eleições. Mas a definição da posição ficará a cargo do grupo de aliados. "O que deverá ser levado em conta é o projeto do grupo, não ambições individuais".

Presidência – Na estratégia presidencial, segundo Afif, a costura já vai tomando forma com a possível chapa formada por Serra e pelo governador Aécio Neves, lideranças dos dois maiores colégios eleitorais do País. "O que faz sentido acaba acontecendo. Essa união já sai com cacife eleitoral e com força de atração natural de novos aliados devido a sua envergadura", disse. "Afinal, o PMDB não é um partido vocacionado a dar apoio ao PT. Digo mais, o próprio PSDB saiu do PMDB", completou.

Além disso, Afif considera a crise econômica um importante divisor de águas a partir do próximo ano, colocando a necessidade de um eficiente administrador público, capaz de enxugar gastos da máquina sem afetar investimentos. "Até agora surfou-se na onde de crescimento mundial, mas acabou a era de discursos vazios e só carismáticos. Precisamos de hoje em diante de objetividade, de gente que realmente sabe o que fazer e como, além de para onde seguir".

A plenária da ACSP, que teve lotação máxima, foi acompanhada da mesa de trabalhos pelo presidente da entidade, Alencar Burti, pelo deputado federal Paulo Maluf (PP), pelo presidente do Sescon-SP, José Maria Chapina Alcazar, pelo secretário municipal de Relações Internacionais, Alfredo Cotait Neto, pelo curador da Bienal e ex-presidente da BMF, Manuel Pires da Costa, e pelo presidente da Sociedade Rural Brasileira, Cesário Ramalho da Silva.

fonte:http://www.dcomercio.com.br/Materia.aspx?canal=38&materia=3846