Leptospirose mata mais do que dengue na Bahia

Desde 2007, enfermidade vitimou 22 pessoas enquanto doença transmitida pelo ‘Aedes aegipty’ causou oito óbitos


Embora o medo de contrair dengue tenha tirado o sono da população, é a leptospirose que mata silenciosamente em toda a Bahia. A doença transmitida pela urina do rato já levou 22 pessoas à morte, de 2007 até agora, enquanto a dengue hemorrágica, a forma mais grave da doença, vitimou oito pacientes no mesmo período – quatro este ano. De janeiro até ontem, somente o Hospital Couto Maia, referência no tratamento de doenças infecto-contagiosas no estado, registrou seis mortes por leptospirose, sendo cinco no mês de março.

O número de vítimas pode ser ainda maior, já que as secretarias municipal e estadual da Saúde ainda não fecharam as estatísticas do mês de abril e há subnotificação. Em Salvador, foram registradas apenas duas mortes. O Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) do município notificou, de janeiro até a 17ª semana epidemiológica, que equivale a 19 de abril, 49 casos de leptospirose. No mesmo período do ano passado, foram 29. O crescimento das ocorrências alerta para o grave problema vivido, principalmente, pela população dos bairros periféricos de Salvador, exposta à incidência de doenças infecciosas.

A mais recente vítima fatal na capital foi registrada na segunda-feira, 5 de maio. O zelador Antônio José Ferreira, 49 anos, morreu no Hospital Couto Maia, onde ficou internado por 28 dias, após contrair a doença em sua própria casa. O caso gerou revolta e medo aos moradores do Conjunto Sussuarana Velha 1, onde um extenso canal, por onde passa esgoto a céu aberto, percorre todo o conjunto. Os dejetos atraem uma grande quantidade de ratos e baratas, que passeiam livremente em toda a região.

Esgoto - “Ele pegou leptospirose num dia em que a casa dele foi inundada pela água da chuva. Ele estava de chinelo e se contaminou”, contou a esposa do zelador, Antônia Silvia de Araújo, 52. Ela disse que, apesar de morarem em casas separadas, já presenciou várias vezes a luta do marido no combate aos ratos. A situação põe em risco todo o conjunto. Difícil encontrar alguém que não cruze com os roedores pelas ruas e até dentro de casa. Além da ameaça da leptospirose, o esgoto também vem causando problemas de pele em muitas pessoas, sendo as crianças as mais atingidas.

“A gente tem muito medo de pegar a leptospirose. Tenho um filho pequeno e não deixo ele andar descalço”, disse a moradora Deise Souza Santos, 26. Ela denuncia que há mais de um ano o Centro de Controle de Zoonoses não aparece no bairro para colocar o veneno utilizado no processo de desratização. “A gente não pode nem colocar chumbinho aqui por causa das crianças e dos ani-mais. Não temos como espantar os ratos”, lamentou.

Segundo o presidente da Associação de Moradores de Sussuarana e Adjacências, Eniedson Ferreira dos Santos, o esgoto é conseqüência de uma obra inacabada do Projeto Viver Melhor, da área de habitação, realizado pela Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder) em parceria com a Caixa Econômica Federal (CEF). A obra foi finalizada em 2005, mas não houve canalização do esgoto. “A morte do morador é conseqüência da irresponsabilidade e do descaso dos poderes públicos”, acusou. Ele acrescentou que já solicitou a limpeza do canal à Superintendência de Manutenção e Conservação da Cidade (Sumac), mas nada foi feito. A assessoria de imprensa da Conder informou que a obra no canal será feita na segunda etapa do projeto, ainda sem previsão de início.

***
Infestação de ratos no subúrbio

Apesar de os ratos estarem presente em toda a cidade, é no subúrbio ferroviário onde eles se concentram. Dos 49 casos de leptospirose registrados pelo Centro de Controle de Zoonoses, 17 foram na região. A estatística está diretamente ligada às péssimas condições de saneamento básico de toda região. No loteamento de Parque Setúbal, em Coutos, moradores andam “armados” contra os roedores. “A gente coloca chumbinho todos os dias. Os ratos passeiam no telhado e sempre entram dentro de casa”, relata a moradora Regina Célia dos Santos, 43 anos.

As praias também não escapam da presença indesejável dos ratos. Restos de alimentos jogados na areia servem como isca para os roedores. No Porto da Barra, uma das praias mais freqüentadas, vendedores confirmam o perigo. “A limpeza só é feita pela ma-nhã. Durante a noite, os ratos passeiam nisso tudo aqui e ainda se entocam na parede da balaustrada”, conta o vendedor de água-de- coco, Ademir Pinto Gonçalves, 59.

O médico veterinário do CCZ, Marcelo Medrado, diz que as ações do órgão para o controle da população de roedores ocorrem em duas etapas. A desratização, feita com o veneno de rato, só é feita entre agosto a janeiro, períodos não chuvosos. “Não adianta colocar remédio para matar rato no Inverno”, explica. No período chuvoso, as ações são apenas preventivas, através de campanhas educativas junto à população e limpeza dos canais, que é realizada em parceria com a Limpurb. Ele ressalta, no entanto, que a população também é responsável pela manutenção da limpeza em seu bairro, devendo evitar jogar lixo em lugares impróprios.

***

NOTIFICAÇÕES*

Subúrbio ferroviário - 17

São Caetano/Valéria - 9

Cabula/Beiru - 8

Pau da Lima - 5

Cajazeiras - 3

Itapagipe - 3

Liberdade - 2

Brotas e Centro Histórico - 1

Barra/Rio Vermelho - 0

Boca do Rio e Itapuã - 0

Por distrito sanitário (Fonte: CCZ)

***
Incidência no período chuvoso

Os dados históricos do Hospital Couto Maia apontam um crescimento significativo do número de casos de leptospirose a partir do mês de maio, quando começa o período chuvoso. Este ano, as ocorrências começaram a aumentar em março. Até ontem, quatro pacientes – uma mulher e três homens – estavam internados no hospital com leptospirose. Destes, dois estão em estado grave na unidade de tratamento intensivo (UTI). “A leptospirose é uma doença endêmica em Salvador. É típica dos países subdesenvolvidos com problemas de saneamento básico”, ressalta a diretora da unidade hospitalar, Ceuci Nunes.

Apesar de perceber uma queda na quantidade de casos nos últimos três anos, o número de mortes ainda preocupa. O índice de mortalidade da doença é de 13%, enquanto o da dengue é de 5%. A especialista afirma que a maioria dos pacientes já dá entrada no hospital em estágio avançado da doença. Isto porque os sintomas coincidem com os de outras doenças infecciosas. As principais vítimas são homens que traba-lham em profissão de limpeza e locais abandonados, como pedreiros e jardineiros.

***

CONTAMINAÇÃO

A TRANSMISSÃO da leptospirose se dá através da água contaminada com urina do rato, principalmente após períodos de chuva forte, quando os canais transbordam e a população entra em contato com a água suja. A leptospyra, bactéria presente na urina do rato, penetra no organismo através da pele.

***
Esgoto em 61,8% das casas

Camila Vieira

Problemas antigos relacionados à falta de rede de esgotamento e coleta de lixo contribuem para que o número dos casos de lepitospirose se multipliquem na Bahia. A Síntese de Indicadores Sociais 2007, baseada na Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD) 2006, revelou que dos 2,655 milhões de domicílios da Bahia, 61,8% contam com o serviço de rede coletora de esgotamento sanitário e/ou pluvial – o maior índice entre os estados nordestinos, muito superior à média da região, que é de 41,6%. Outros 31,9% dos domicílios dispõem de fossa e 6,2% desprezam seus dejetos em vala, direto no rio ou no mar, entre outras formas. Na região metropolitana de Salvador, 84% das 999 mil moradias contam com o serviço, 10,1% utilizam fossas e 5% fazem uso de outros meios.

Com relação à coleta de lixo, os números são preocupantes. A pesquisa constatou que 73% dos baianos contam com serviço diário, outros 23,1% dependem da coleta indireta e 3,9% não têm o benefício. A situação é ainda mais gritante da RMS, onde 47,7% têm disponível a coleta diária, 49,5% só contam com o serviço de forma indireta e 2,8% não dispõem.

Embora os dados da PNAD evidenciem a carência, a Embasa assegura que Salvador é uma das capitais com melhor atendimento em esgotamento sanitário do país, com índice de cobertura da ordem de 76,5%. Em nota enviada à imprensa, a empresa garantiu que vai executar, a curto prazo, mais 61 mil ligações domiciliares em Salvador, ampliando o atendimento à população, com prioridade para as áreas de baixa renda.

Com relação ao bairro de Sussuarana, a Embasa afirmou que a região é atendida com coleta regular de esgoto e não há registros recentes de quebras ou extravasamento da rede. A Embasa informou ainda que mantém convênio de cooperação com a Fundação Osvaldo Cruz, que informa todas as ocorrências de leptospirose na cidade. Segundo a empresa, nessas situações, os técnicos vão até o endereço onde houve infecção, avaliam as condições sanitárias da área e, se existir alguma irregularidade, se encarregam de corrigi-la.

A empresa tem ciência de que o esgoto é um dos vetores de disseminação da leptospirose, mas, por meio da sua assessoria, lembra que, de acordo com pesquisadores e centros de referência em controle de zoonoses, a maior incidência da bactéria leptospira presente na urina do rato ocorre após fortes chuvas e conseqüentes inundações. Outros fatores que favorecem o aumento de ratos – principal transmissor da doença – são o acúmulo de lixo e mato alto em terrenos baldios.

***
Principais sintomas


Dores no corpo

Dores de cabeça

Dor na panturrilha (batata da perna)

Icterícia

Febre

***
COMO PREVENIR
Manter caixas d’água, ralos e vasos sanitários tampados, evitando possível contaminação por ratos.
Um sinal de que os ratos estão por perto são buracos no jardim com diâmetro de 10cm a 15cm

Eliminar excrementos: um rato pode deixar até 25 mil por ano

Outro sinal de alerta são marcas de roedura nos sacos de lixo

Para evitar atrair ratos, certifique-se de que o lixo permaneça em recipientes tampados, e nunca jogue comida no quintal para outros animais

Quem trabalha na limpeza de lama, entulho e desentupimento de esgoto deve usar botas e luvas de borracha. Se isto não for possível, usar sacos plásticos duplos amarrados nas mãos e nos pés

O hipoclorito de sódio a 2,5% (água sanitária) mata as leptospyras e deve ser utilizado para desinfetar reservatórios d’água (um litro de água sanitária para cada mil litros de água do reservatório)

fonte: http://www.avoz.com.br/avoz/v3/online/online5.htm